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domingo, 10 de julho de 2022

Bom Domingo!

DOMINGO

Todo domingo é assim 
a gente se ama na rua
e o dia parece não ter fim. 

É dia de fazer o que quiser
com limites ao vento
e a vida pro que der e vier. 

Chico Pinto


sábado, 2 de abril de 2022

Nada acontece duas vezes

Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém falou
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?
Você vem – mas vai passar.
Você passa – eis a beleza.

Sorridentes, abraçados
tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d’água.

(Wisława Szymborska, Um amor feliz)

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Para a minha mãe e a de todas


Finalmente encerramos esse longo 2021 com um poema dedicado as milhares de mães que perderam seus filhos, esposos, amigos e parentes, seja por coronavírus ou pela fome espalhada pela miséria instalada no nosso país. Agradeço aos companheiros que acompanharam a Raposa Preppie em mais um ano dedicado à cultura, literatura e curiosidades. Bom 2022 para todos.

Mãe Renovadora e reveladora do mundo A humanidade se renova no teu ventre. Cria teus filhos, não os entregues à creche. Creche é fria, impessoal. Nunca será um lar para teu filho. Ele, pequenino, precisa de ti. Não o desligues da tua força maternal. Que pretendes, mulher? Independência, igualdade de condições… Empregos fora do lar? És superior àqueles que procuras imitar. Tens o dom divino de ser mãe Em ti está presente a humanidade. Mulher, não te deixes castrar. Serás um animal somente de prazer e às vezes nem mais isso. Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar. Tumultuada, fingindo ser o que não és. 
Roendo o teu osso negro da amargura.

(Cora Coralina)


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Maio 1964 por Ferreira Gullar



Na leiteria a tarde se reparte

Em iogurtes, coalhadas, copos
de leite
e no espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo
a vida
que é cheia de crianças, de flores
e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos, uma cara
e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
que nenhum ato
institucional ou constitucional
pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!
quantos em cárceres escuros
onde a tarde fede a urina e terror.
Há muitas famílias sem rumo esta tarde
nos subúrbios de ferro e gás
onde brinca irremida a infância da classe operária.

Estou aqui. O espelho
não guardará a marca deste rosto,
Se simplesmente saio do lugar
ou se morro
se me matam.
Estou aqui e não estarei, um dia,
em parte alguma.
Que importa, pois?
A luta comum me acende o sangue
e me bate no peito
como o coice de uma lembrança.

(Feirreira Gullar)



quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A polêmica sobre "La spigolatrice di Sapri"

Uma reportagem publicada no Uol de ontem, sobre uma estátua seminua homenageando a personagem A Respigadora de Sapri (La spigolatrice di Sapri), uma personagem que abandona ser emprego para seguir o exército de Carlo Pisacane que invadiu o Reino de Nápoles onde morreram 300 homens.

A Respigadora de Sapri

O poema escrito em 1857 por Luigi Mercantini, retratava a mulher que foi esculpida de forma semi-nua, gerando protestos e discursões sobre machismo e chauvinismo da sociedade italuana na cidade italiana de Sapri.

A Raposa Preppie publica a versão original do poema (em italiano) a partir da versão publicada na Wikipedia:

«Eran trecento, eran giovani e forti,
e sono morti!

Me ne andava al mattino a spigolare
quando ho visto una barca in mezzo al mare:
era una barca che andava a vapore,
e alzava una bandiera tricolore.
All’isola di Ponza si è fermata,
è stata un poco e poi si è ritornata;
s’è ritornata ed è venuta a terra;
sceser con l’armi, e a noi non fecer guerra.
Eran trecento, eran giovani e forti,
e sono morti!

Sceser con l’armi e a noi non fecer guerra,
ma s’inchinaron per baciar la terra.
Ad uno ad uno li guardai nel viso:
tutti aveano una lagrima e un sorriso.
Li disser ladri usciti dalle tane,
ma non portaron via nemmeno un pane;
e li sentii mandare un solo grido:
“Siam venuti a morir pel nostro lido”.
Eran trecento, eran giovani e forti,
e sono morti!

Con gli occhi azzurri e coi capelli d’oro
un giovin camminava innanzi a loro.
Mi feci ardita, e, presol per la mano,
gli chiesi: “Dove vai, bel capitano?”
Guardommi, e mi rispose: “O mia sorella,
Vado a morir per la mia patria bella”.
Io mi sentii tremare tutto il core,
né potei dirgli: “V’aiuti il Signore!”
Eran trecento, eran giovani e forti,
e sono morti!

Quel giorno mi scordai di spigolare,
e dietro a loro mi misi ad andare:
due volte si scontrâr con li gendarmi,
e l’una e l’altra li spogliâr dell’armi:
ma quando fûr della Certosa ai muri,
s’udirono a suonar trombe e tamburi;
e tra ’l fumo e gli spari e le scintille
piombaron loro addosso più di mille.
Eran trecento, eran giovani e forti,
e sono morti!

Eran trecento e non voller fuggire,
parean tre mila e vollero morire;
ma vollero morir col ferro in mano,
e avanti a loro correa sangue il piano:
fin che pugnar vid’io per lor pregai,
ma a un tratto venni men, né più guardai:
io non vedea più fra mezzo a loro
quegli occhi azzurri e quei capelli d’oro.
Eran trecento, eran giovani e forti,
e sono morti!»

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Poema do dia da árvore


Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come.

Feliz dia da Árvore

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Marighella e a liberdade

Os versos de Liberdade foram escritos em 1939 e publicados no livro Poemas: rondó da liberdade, pela Brasiliense, em 1994.

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Poemas de ano novo

“¿Qui sap el que vindrà i el que em deserta?
Nou any és nou engany; en vida incerta,
jo sóc una ombra que s’esmuny de frau.

Oh Veritat, tu sola coronada
ben al dellà dels tombs de l’estelada!
Sigues-me llei i certitud i pau.” 

Josep Carner, Any Nou

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Poemas de fim de ano

Cortar o tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente. 


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Poemas de Natal


Ya que era llegado el tiempo
en que de nacer había,
así como desposado
de su tálamo salía,

abrazado con su esposa,
que en sus brazos la traía,
al cual la graciosa Madre
en su pesebre ponía,

entre unos animales
que a la sazón allí había,
los hombres decían cantares,
los ángeles melodía,

festejando el desposorio 
que entre tales dos había, 
pero Dios en el pesebre 
allí lloraba y gemía, 

que eran joyas que la esposa 
al desposorio traía, 
y la Madre estaba en pasmo 
de que tal trueque veía: 

el llanto del hombre en Dios, 
y en el hombre la alegría, 
lo cual del uno y del otro 
tan ajeno ser solía.

("Romance del Nacimiento", San Juan de la Cruz)

domingo, 20 de outubro de 2019

A pequena Ronete Coquete, da pochete de grapete

Chega a ser bem engraçado ao ler um artigo a ser eliminado na Desciclopédia fazer uma busca e encontrar uma peróla composta por nada mais nada menos por Mauricio de Souza, criador da Turma  da Mônica. Eis o poema abaixo encontrado no blog Camilo Viisk da melhor forma escrita postado em 2007. Há outro blog com o poema postado ainda em 2015, mas sem seguir alguma regra ortográfica.

Ronete Coquete, da pochete de grapete comia espaguete com omelete, deitada no carpete da quitinete da garçonete Ivete, que trabalhava na lanchonete 'Chiclete com Confete', no número dezessete da rua Margarete.
 
Ronete coquete passeava com seu patinete que comprara na internet. Quando bateu numa caminhonete!


"Levante Coquete! Levante Coquete! Gritava Ivete!"


Mas a pequena Ronete era apenas uma marionete caída no número dezessete da rua Margarete.

[Maurício de Sousa]
Ah, sim. Antes que seja eliminado o artigo, o próprio será devidamente traduzido e postado na sagrada Desgalipedia.

sábado, 24 de agosto de 2019

Drummond e o Código Florestal

O que diria Drummond, sobre a absurda alteração do Código Florestal e agora com os incêndios ocasionados com queimadas ocasionadas pelo Dia do Fogo em 10 de agosto? Apesar das imagens ao longo do poema esse blog dará uma visão crítica sobre o tema.


Sem o lirismo das orquídeas,
Sem o charme decorativo das samambaias,
Nua de liquens e bromélias do litoral,
A mata da Caratinga, protegida dos ventos,
Espera de nós
A proteção maior contra o machado,
A serra mecânica, o fogo.


De cada cem árvores antigas
Restam cinco testemunhas acusando
O inflexível carrasco secular.
Restam cinco, não mais. Resta o fantasma
Da orgulhosa floresta primitiva.


Na mata de caratinga,
Tem paca, tem capivara,
Tem anta e mais jacutinga,
Tem silêncio tem arara,
E nas ramarias densas
De suas copas imensas,
Paira um segredo mineiro
Que dura um século inteiro…


Uma espuma de azul bóia nas névoas da altura,
Um resto de sonho perdura na resina dos caules.
Manhã-quase-manhã, a terra acorda
Do seu sono de perfumes e lianas.


No esforço de fugir à mata obscura,
Bromélias em família buscam luz
E em suas folhas uma gota d’água,
Puro diamante líquido, reluz.


Do japuaçu
No alto da embaúba
Me deixa intrigado.
Ele ri de Quê?
Da mão que derruba
Seu ninho cuidado?
Vou adivinhar:
Se a ave ri, coitada.
É que, por destino,
Não sabe chorar.


A água serpeia entre musgos seculares
Leva um recado de existência a homens surdos
E vai passando, vai dizendo
Que esta mata em redor é nossa companheira,
É pedaço de nós florescendo no chão.


Que rumor é esse na mata?
Por que se alarma a natureza?
Ai…é a moto-serra que mata,
Cortante, oxigênio e beleza.


Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados
Dia seguinte.
O ranúnculo da esperança não brota
No dia seguinte.
O vazio da noite, o vazio de tudo
Será o dia seguinte.

Carlos Drummond de Andrade

O capitalismo selvagem resulta nisso...

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Haicai de Drummond

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser 'gauche' na vida".


Carlos Drummond de Andrade


domingo, 2 de junho de 2019

Poemas

"Strani amori fragili
Prigionieri liberi
Strani amori mettono nei guai
Ma, in realtà, siamo noi"


"Amores estranhos, frágeis
Prisioneiros livres
Amores estranhos que nos colocam em problemas
Mas, na realidade, somos nós"

domingo, 10 de março de 2019

Frases soltas

Espero que gostem de alguns aforismos de escritores que nos falaram por meio de seus escritos.

... E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe... (Fernando Pessoa)
"A morte é a coisa mais antiga do mundo; e sempre chega pontualmente na hora incerta!" (poema de Mário Quintana) 

"Quanto ao futuro,
Não é uma questão de prevê-lo, mas de torná-lo possível"

"Não vemos as coisas como elas são, vemos como nós somos." (Anaïs Nin, escritora francesa)

sábado, 23 de junho de 2018

Poemas galegos

Aproveitando os festejos de San Xoán, día moi especial en Europa e unha das máis importantes festas juninas no Brasil, esta edición do blog A Raposa Preppie está dedicada a poetisa galega Helena Villar Janeiro co seu poema Noite de San Xoán.

Aproveitando os festejos de São João, dia muito especial na Europa e aqui uma das mais importantes festas juninas, essa edição do blog A Raposa Preppie é dedicada a poetisa galega Helena Villar Janeiro com seu poema Noite de San Xoán.


“Salto por enriba do lume de San Xoán,
para que non me trabe nin cobra nin can”
Popular
Vas pasar hoxe a noite de San Xoán,
señardade do lume,
agoiros de perigo na auga avolta.

Sobre a tona do río non nacen sabugueiros
e ovos, se os atopases,
serían chocos dunha serpe anfibia
reminiscencia inmunda doutro edén
no que naceu a culpa.

¿Onde buscar as noites que non son,
as que non houbo quen tornase a tempo,
todas as que deixamos de vivir
porque pasaron lonxe
aínda levando dentro
o que nunca quixemos
nin sentimos?

O río está tan orfo coma ti
da abenzoada flora
que che mantivo a crenza
dunha resurrección en albas puras
emerxendo das augas perfumadas.

Silva macha, fiuncho,
fieito, espantademos,
codeso, malva, menta,
verbena, herba abelleira,
néveda, trevo, cálsamo,
aquilea e romeu.

Non podes estoupar
os tróqueles inflados
no rito que te envolve
xogando a vida entre a dixitalina
da divina inconsciencia.

Para atopar a noite de San Xoán
perdida por algures,
vívea en vixilia
mentres chega o albor.

Daquela inclínate
a mirarte nas augas que atravesas
e agardan a túa imaxe serenada.

E seguirás a verte
como inda fuches onte.

Sempre a resurrección é procurada
pero tan só se cumpre no desexo.


H.V.J (Remontar o río, 2014)

domingo, 1 de maio de 2016

"El poeta pide a su amor que le escriba" de Garcia Lorca

El poeta pide a su amor que le escriba

Amor de Mis Entrañas
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.


El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte


Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.


Garcia Lorca

domingo, 13 de março de 2016

Poema em destaque: A Carga da Brigada Ligeira


The Charge of The Light Brigade é um poema escrito por Alfred Lord Tennyson no século XIX, que conta a história da Carga da Brigada Ligeira durante a Batalha de Balaclava, que aconteceu em 1854, na Guerra da Crimeia, e envolveu os impérios britânico e russo. Aqui nós deixamos uma amostra do poema:
“Forward, the Light Brigade!”
Was there a man dismay’d?
Not tho’ the soldier knew
Someone had blunder’d:
Theirs not to make reply,
Theirs not to reason why,
Theirs but to do and die:
Into the valley of Death
Rode the six hundred
“The Charge of the Light Brigade,” Alfred, Lord Tennyson

sábado, 21 de novembro de 2015

Poema de Castro Alves no Dia da Consciência Negra


"Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas
Em ânsia e mágoa vãs".

Castro Alves - Navio Negreiro (Tragédia no Mar)

domingo, 15 de novembro de 2015

Poemas de Drummond

Gostou, fofo! Eu adoro quem me homenageia.

A PUTA

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora
Na rua de baixo.
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardemdo.
E as labaredas torram a língua.
De quem disser:Eu quero a puta
Eu quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes
De longe. Na mata do cabelo.
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.

É preciso crescer esta noite inteira sem parar.
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino.
O gosto do menino.
Que nem o menino.

Sabe, e quer saber, querendo a puta.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)