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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Carta ao Senhor Futuro, por Eduardo Galeano

Carta ao Senhor Futuro, por Eduardo Galeano

Prezado Senhor Futuro,

Com a minha maior consideração:
Estou lhe escrevendo esta carta para pedir-lhe um favor. O senhor saberá desculpar-me o incômodo.
Não, não tema, não é que queira conhecê-lo. O senhor há de ser muito solicitado, haverá tanta gente que quererá ter o prazer; mas eu não. Quando alguma cigana me toma a mão para ler-me o porvir, saio correndo em disparada antes que ela possa cometer tal crueldade.
E, no entanto, você, misterioso senhor, é a promessa que nossos passos perseguem querendo sentido e destino. E é este mundo, este mundo e não outro mundo, o lugar onde o senhor nos espera. A mim e aos muitos que não acreditamos nos deuses que nos prometem outras vidas nos mais longínquos hotéis de Mais Além.
E aí está o problema, senhor Futuro. Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam, como se fosse uma bola. Jogam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes o espremem, como se fosse um limão. A este passo, temo, mais cedo do que tarde, o mundo poderá ser não mais do que uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem ar e sem alma.
Disso se trata, senhor Futuro. Eu lhe peço, nós lhe pedimos, que não se deixe desalojar. Para estar, para ser, necessitamos que o senhor siga estando, que o senhor siga sendo. Que o senhor nos ajude a defender a sua casa, que é a casa do tempo.
Quebre-nos esse galho, por favor. A nós e aos outros: aos outros que virão depois, se tivermos depois.
Saúda-te atentamente,

Um Terrestre 

(Publicado em Ao Arqueólogo do Futuro, da Agência Carta Maior)

sábado, 7 de setembro de 2019

Expressões latinas

* Memento Mori é uma expressão latina que significa Lembra-te que morrerás e foi usada como saudação por monges na Idade Média, ao que se respondia Carpe Diem ou Aproveite o dia para recordar que a efemeridade da vida não deve ser preenchida com vaidades.
* CHRISTO NIHIL PRÆPONERE (latim: A nada dar mais valor do que a Cristo.)
* Non nobis Domine, non nobis, sed Nomini Tuo da Gloriam (Salmo 113,9) é latim e significa: “Não a nós, ó Senhor, não a nós, mas ao Vosso Nome dai Glória”. É uma pequena oração de agradecimento e também uma expressão de sincera humildade, quando se recusa agradecimentos por ter feito a própria obrigação ou por ter feito algo a serviço de ou por amor a Deus.
* Vanitas Vanitatum et Omnia Vanitas é parte do segundo versículo do primeiro capítulo do livro de Eclesiastes, comumente traduzido por Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Catulo 16 e a censura

Pedicabo ego vos et irrumabo
(Gaius Valerius Catullus)

Se você não é fluente latim, saiba que a frase acima é o primeiro verso de um poema considerado o “mais sujo escrito em qualquer idioma” e que demorou 20 séculos para que alguém se arriscasse a traduzi-lo por inteiro. Antes, em algumas partes do poema, o conteúdo era atenuado ou, simplesmente, cortado.
Trata-se de “Carmen 16” – também chamado de “Catulo 16” -, escrito pelo controverso poeta romano Caio Valério Catulo, que viveu no século 1 a.C., no final do período republicano. Ele pertencia a um grupo de poetas que queria romper com o passado literário romano, apelidado ironicamente por Cícero de “poetas novos”.

Catullus at Lesbia's por
Lawrence Alma-Tadema (1836–1912)
Essas “singelas” palavras de Catulo eram dirigidas a Marco Fúrio Bibáculo – poeta que teve um caso com seu namorado – e a Marco Aurélio Cota Máximo Messalino, cônsul na dinastia júlio-claudiana. Os dois acusavam os versos de Catulo de serem “suaves demais”. Ele, enfurecido pelas críticas, decidiu mostrar que conseguia fazer uma poesia mais pesadinha.

“Carmen 16” marcou a história da literatura pela longa censura e obscenidade, ao tratar temas que desafiavam o decoro e a moral romana. O poema serviu de inspiração, séculos depois, para autores como o americano T. S. Eliot e o francês Charles Baudelaire.

Leia a tradução completa do poema, realizada por João Ângelo Oliva Neto.

Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos,
Aurélio bicha e Fúrio chupador,
que por meus versos breves, delicados,
me julgastes não ter nenhum pudor.
A um poeta pio convém ser casto
ele mesmo, aos seus versos não há lei.
Estes só tem sabor e graça quando
são delicados, sem nenhum pudor,
e quando incitam o que excite não
digo os meninos, mas esses peludos
que jogo de cintura já não tem
E vós, que muitos beijos (aos milhares!)
já lestes, me julgais não ser viril?
Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos.


Versão original em latim.

Pedicabo ego uos et irrumabo
Aureli pathice et cinaede Furi
qui me ex uersiculis meis putastis
quod sunt molliculi parum pudicum
nam castum esse decet pium poetam
ipsum uersiculos nihil necesse est
qui tum denique habent salem ac leporem
si sunt molliculi ac parum pudici
et quod pruriat incitare possunt
non dico pueris sed his pilosis
qui duros nequeunt mouere lumbos
uos quod milia multa basiorum
legistis male me marem putatis
pedicabo ego uos et irrumabo 


Catullus XVI
(Gaius Valerius Catullus)