domingo, 21 de setembro de 2014

Um pingo de história de Portugal pra lá de Marrakesh...

Vejam como a novela Avenida Brasil de João Emanuel Carneiro, reproduz lá fora no estrangeiro, um pouco do sucesso de Escrava Isaura. Ela é a primeira novela estrangeira traduzida para o darija, dialeto árabe do Marrocos, onde faz sucesso.

Placa toponímica portuguesa na Cidadela de Mazagão
O dialeto darija tem muitas palavras como saia (em português, saia), varanda (varanda), miziria (miséria), qamija (camisa) e outras que são influência da presença portuguesa no Marrocos, notadamente no século XVI.

Mais coisas interessantes aquiaqui.

domingo, 31 de agosto de 2014

Martim Codax e os vinhos Albariños

“Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram” Cícero
As pessoas envelhecem como vinho. Com o passar dos anos ou ficam doces ou azedam... e as que azedam é por falta de rolha!Fabíola de Fable sobre si mesma.
Publicado por Fernanda Jimenez, no blog literário Falando em Literatura:

Eu sou praticamente leiga em vinhos, sou do tipo que compra pelo rótulo, pela garrafa (os vinhos que têm o fundo côncavo são os melhores, vinhos com denominação de origem certificada, fora os selos que garantem a qualidade), pelo teor alcóolico (procuro sempre os mais baixos) e também pelo nome. E comprando pelo nome, comecei a observar que existem rótulos com títulos bem interessantes, inclusive com poemas:

É ou não é um vinho com poesia? Agora falta provar.
Os vinhos Albariños são da Galícia e os galegos, além do espanhol, falam também o idioma galego. Virando a garrafa, olha a surpresa, um poema lírico trovadoresco de Martín Códax, século XIII:

Fácil de entender, não? Muito parecido com o português.
Martin Códax foi um trovador galego, escreveu cantigas de amigo, no tempo em que as poesias eram feitas para serem cantadas. Códax provavelmente era de Vigo e nos deixou sete cantigas, que foram encontradas por acaso na biblioteca pessoal de Paulo Vindel, em 1914. O pergaminho estava dentro de um livro do filósofo Cícero. Pouco se sabe quem foi o trovador, mas sua obra lírica galaico-portuguesa é de grande valor histórico. No pergaminho de Codáx, além dos poemas, também estão as partituras musicais. As mesmas notas estão reproduzidas na rolha do vinho Códax:


Alma do vinho assim cantava na garrafa:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que se abafas,
Um cântico em que só há fraternidade e luz!”

(Charles Beaudelaire, do poema L Âme du Vin)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Destaques literários/Agosto'14

A Raposa Preppie  traz novos destaques para leitores infantis nesse mês de agosto.

Romance da Raposa – Aquilino Ribeiro, com ilustrações de Benjamin Rabier
«Aquilino Ribeiro (1885-1963), prosador de uma riqueza lexical só comparável à de Camilo Castelo Branco, é um dos autores mais emblemáticos da Bertrand Editora. As suas obras, de fortes tons picarescamente realistas e rara intensidade sensorial, retratam ambientes genuinamente portugueses e gentes rudes e voluntariosas. Prosseguindo o seu constante labor de dar a conhecer às novas gerações os mais talentosos escritores do seu catálogo, a Bertrand relança agora Romance da Raposa (1924). Trata-se de uma narrativa infantil de requintado virtuosismo estilístico, aqui numa edição em que se substituíram as ilustrações a preto e branco (utilizadas a partir dos anos de 1960) pelas originais a cores, da autoria de Benjamin Rabier. Uma solução plástica que se adequa na perfeição à fábula e que faz deste livro um objeto único.

Esta edição de Romance da Raposa é, pois, um regresso à versão original de um livro que gerações e gerações de crianças portuguesas leram.

Óscar e o león de Correos - Vicente Muñoz Puelles com ilustrações de Noemi Villamuza
Edição em galego desse conto infantil da Editora espanhola Anaya, Série Sopa de Livros. Esperemos com toda paciência que nos chegue uma edição em português.

domingo, 8 de junho de 2014

Destaques literários/Junho'14

Estamos a poucos dias do início da Copa do Mundo e a Raposa Preppie em seus destaques literários destaca o livro La Doce de Gustavo Grabia.


Gustavo Grabia é o jornalista mais especializado da Argentina na cobertura da violência no futebol. Lançou no Brasil a tradução do livro sobre La Doce, a temida barra brava do Boca Juniors.
No futebol da Argentina, é muito comum que os jogadores tenham que pagar um mensalão à barra do seu clube. Os poucos que recusam-se são perseguidos, vaiados impiedosamente, caso não tenham um desempenho em algum jogo. Em alguns casos, as ameaças são feitas com armas e se estendem aos familares.
Mas mesmo ídolos como Riquelme e Palermo, ambos do Boca Juniors, se dobraram à pressão da La Doce - a mais poderosa barra da Argentina. Quando um presidente da torcida esteve preso, ambos foram à prisão fazer uma visita e manifestar apoio público ao líder da barra.

sábado, 7 de junho de 2014

Curiosidades no Dia Mundial do Meio Ambiente

O Dia Mundial do Ambiente é celebrado a 5 de junho, foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas na resolução (XXVII) de 15 de dezembro de 1972 com a qual foi aberta a Conferência de Estocolmo, na Suécia, cujo tema central foi o Ambiente Humano.
Conforme diz a Wikipédia, a Raposa Preppie confere algumas pequenas curiosidades sobre alguns a edição de livros. Vocês sabiam que livros escritos pelos autores como o português José Saramago e a inglesa J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter, tem seus livros impressos em papéis ecologicamente corretos (reciclados).

Entretanto outras formas de ajudar a preservar a natureza é comprando livros digitais como O Herói Discreto de Mario Vargas Llosa da Editora Objetiva por R$ 26,90.

sábado, 10 de maio de 2014

Análise bem humorada da filosofa Valesca Popozuda

O blogueiro Guy Franco no site Yahoo Notícias postou uma analíse bem engraçada da obra “Quero te Dar”, de Valesca Popozuda, nossa grande pensadora contemporânea.

Nesse texto contém algumas notas sobre a música que poucos perceberam as referências intelectuais que ela usa em suas letras aparentemente simples.


Amor, tá difícil de controlar
Popozuda parece sugerir a Summa Theologiæ, de Santo Tomás de Aquino, que nos apresenta as virtudes humanas, dentre elas a prudência. A prudência, virtude intelectual essencial ao homem de bem, é uma das principais virtudes cardeais, ao lado das virtudes morais da justiça, fortaleza e temperança. Cumpre observar a maneira hábil com a qual a autora começa a obra, usando “amor”, recurso tão batido, mas tão preciso aqui.
Há mais de uma semana/Que eu tento me segurar
A discussão já vem de Aristóteles (383 – 322 a.C), mas foi tomada por virtude moral pelo Doutor Angélico e retomada agora por Popozuda. Para Popozuda (ver os DVDs Tsunami e Tsunami II), a virtude consiste em viver segundo a natureza. Como a natureza humana é racional, para viver a felicidade plena é preciso buscar o bem, ou seja, a conservação dessa natureza, que no caso é “se segurar”, e não seguir os instintos, apenas.
Eu sei que você é casado
Difícil não pensar aqui em passagens do Levitício ou no Sermão da Montanha do Novo Testamento. Difícil não pensar em Emma Bovary (Flaubert) ou em Victoria Beckham (David Beckham).
Como é que eu vou te explicar?
Aqui a consciência popozudiana começa a se questionar. Durante a elaboração da pergunta, um desenho inconsciente toma forma na cabeça de quem ouve o trecho com a devida atenção (usando fones de ouvido).
Essa vontade louca/Muito louca
Ou: Diese sehr verrückt verrückten Wunsch (ler Além do Bem e do Mal)
Segundo Nietzsche, mesmo a “vontade louca, muito louca” ainda contém em si um pouco de sanidade (ler Marcia Tiburi).
Eu posso falar?
A pensadora dirige-se ao patriarcado. O trecho funciona como transição para o tema principal da obra popozudiana, a mulher submissa, que aqui precisa pedir permissão para falar com um homem.
Quero te dar, quero te dar
A passagem, sem sombra de dúvida, vem de Wittgeinstein. O verso é uma dessas construções elegantes que fez a fama da nossa pensadora quando ela ainda era integrante da Gaiola das Popozudas. Afinal, ela quer dar o quê? Para quem? E o que ela está usando na cabeça? Onde comprou aquilo?
Quero te.../Quero te...
Observe com que delicadeza ela combina o tema do patriarcado com o romantismo. As reticências ecoam em nossa cabeça. Bonito e comovente.
Dá dá dá dá dá dá dá dá dá dá
Dá (да), "sim" em russo. No pensamento popozudiano, a sociedade joga às costas das mulheres um fardo de inferioridade, de maneira que elas são obrigadas a dizer “sim” (да) o tempo todo. A sociedade machista é a sociedade em que a mulher não pode dizer não. Paralelamente, “dá” é também a pronúncia de "pai" em algumas regiões do Reino Unido. Talvez a pensadora pretendesse ligar a submissão (mulher que só pode dizer "sim") com a figura do patriarcado (o pai, o Papa, o cacique político).
Meu nome é Valesca
Valeska, diminutivo de Valeria em várias línguas eslavas. É bem provável que ela esteja se referindo a Santa Valeria de Milão, torturada no ano de 287 d.C por ter se recusado a fazer sacrifícios em nome de deuses pagãos. Valesca, a nossa Valerinha de Irajá, também recusa o que lhe é imposto. Neste caso, o patriarcado é o seu imperador Diocleciano; o machismo, os seus deuses romanos.
E o apelido é "quero dá”
Ou: quero sim. Embora se chame Valesca, para a sociedade ela ainda é a mulher submissa que só pode responder “sim” - daí o apelido.
Ai, ai que vontade louca/Difícil de controlar
Peço que ignore esses versos caso não tenha lido O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Pouparei o leitor de spoilers.
Tô tô tô tô tô tô tô tô
Perceba como a repetição da sílaba cria uma linha melódica como se fosse o eco de uma martelada, de um som metálico. Nota-se a sugestão de fábrica, de processo industrial. Difícil não pensar em Pierre Schaeffer, Stockhausen e outros compositores experimentais, pais da música eletrônica que conhecemos hoje.
Tô doidinha pra te dar
Aqui tem algo que me faz pensar. Que incidente teria levado Popozuda a ficar doidinha de uma hora para a outra? Esse incidente teria alguma relação com o homem casado? Ele tem filhos? Com quem ela está desabafando tudo isso? E por que quando a observamos de lado parece que ela vai tombar?
Quero te dar beijinhos
Talvez uma forma indireta de dizer “eu te amo” (ver Senhor dos Anéis).
Vem cá, vem cá, vem cá
É quase certo que Popozuda tenta incorporar aqui algo que remete às lendas folclóricas, talvez ao canto da sereia. O trecho final fica em suspenso. Nesse ponto talvez seja melhor o ouvinte se deixar levar pelo canto de Valesca.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Catulo 16 e a censura

Pedicabo ego vos et irrumabo
(Gaius Valerius Catullus)

Se você não é fluente latim, saiba que a frase acima é o primeiro verso de um poema considerado o “mais sujo escrito em qualquer idioma” e que demorou 20 séculos para que alguém se arriscasse a traduzi-lo por inteiro. Antes, em algumas partes do poema, o conteúdo era atenuado ou, simplesmente, cortado.
Trata-se de “Carmen 16” – também chamado de “Catulo 16” -, escrito pelo controverso poeta romano Caio Valério Catulo, que viveu no século 1 a.C., no final do período republicano. Ele pertencia a um grupo de poetas que queria romper com o passado literário romano, apelidado ironicamente por Cícero de “poetas novos”.

Catullus at Lesbia's por
Lawrence Alma-Tadema (1836–1912)
Essas “singelas” palavras de Catulo eram dirigidas a Marco Fúrio Bibáculo – poeta que teve um caso com seu namorado – e a Marco Aurélio Cota Máximo Messalino, cônsul na dinastia júlio-claudiana. Os dois acusavam os versos de Catulo de serem “suaves demais”. Ele, enfurecido pelas críticas, decidiu mostrar que conseguia fazer uma poesia mais pesadinha.

“Carmen 16” marcou a história da literatura pela longa censura e obscenidade, ao tratar temas que desafiavam o decoro e a moral romana. O poema serviu de inspiração, séculos depois, para autores como o americano T. S. Eliot e o francês Charles Baudelaire.

Leia a tradução completa do poema, realizada por João Ângelo Oliva Neto.

Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos,
Aurélio bicha e Fúrio chupador,
que por meus versos breves, delicados,
me julgastes não ter nenhum pudor.
A um poeta pio convém ser casto
ele mesmo, aos seus versos não há lei.
Estes só tem sabor e graça quando
são delicados, sem nenhum pudor,
e quando incitam o que excite não
digo os meninos, mas esses peludos
que jogo de cintura já não tem
E vós, que muitos beijos (aos milhares!)
já lestes, me julgais não ser viril?
Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos.


Versão original em latim.

Pedicabo ego uos et irrumabo
Aureli pathice et cinaede Furi
qui me ex uersiculis meis putastis
quod sunt molliculi parum pudicum
nam castum esse decet pium poetam
ipsum uersiculos nihil necesse est
qui tum denique habent salem ac leporem
si sunt molliculi ac parum pudici
et quod pruriat incitare possunt
non dico pueris sed his pilosis
qui duros nequeunt mouere lumbos
uos quod milia multa basiorum
legistis male me marem putatis
pedicabo ego uos et irrumabo 


Catullus XVI
(Gaius Valerius Catullus)