Sempre conhecemos os personagens que são conhecidos dos livros de história e os que atualmente participam do mundo real servindo de referência ao público em geral mas... Quem foi Flora Tristan, a pioneira do movimento socialista feminista? Isso, você saberá agora ao ler esse texto publicado n'A Raposa Preppie.
 |
| Flora Tristan |
Flora Tristan (1803-1844) não representa uma figura filosófica, como Marx ou
Lukács representam claramente, mas sim uma figura da luta dos direitos
das mulheres, do fenômeno do feminismo e, sobretudo, da união de
socialismo e feminismo com o objetivo de alcançar uma sociedade mais
justa, mais livre e mais feliz.
A vida e o trabalho
de Flora acerca das primeiras conceituações de feminismo e,
principalmente, de socialismo são ofuscados por figuras masculinas, como
Fourier, Saint-Simon e Proudhon, decorrente de uma sociedade
extremamente patriarcal. Assim, faz-se mister que reconheçamos não só o
trabalho de Tristan, como também todo o conjunto que sua luta
representa; suas militâncias; e sua falta de reconhecimento na academia,
nos debates e no meio editorial (há pouquíssimas obras traduzidas no
Brasil).
No dia 7 de abril de 1803, na França, nascia Flora Tristan,
filha ilegítima de um aristocrata peruano e uma plebeia francesa. Ainda
nova, perde seu pai e é submetida a trabalhar como operária têxtil e
gráfica, resultante de dificuldades financeiras – as quais passou pelo
resto da sua vida. Na juventude, nunca foi à escola e foi alfabetizada
pela mão (uma costureira sumi-analfabeta), no entanto, tornou-se uma
exímia escritora. Pois, antes de tudo, ela escrevia a voz do povo – da
proletária e da proletária – para o povo.
Com 17 anos, pelas
pressões maternas, foi obrigada a casar-se, tendo três filhos dessa
relação. Na época, com a restauração monárquica, havia a impossibilidade
legal de se divorciar. Por isso, fugiu, mas foi levada à prisão por seu
marido, o qual, mais tarde, a alvejou com dois tiros. O marido fora
condenado, enquanto Flora – que não pôde extrair as balas perto do
coração – dedicou seu curto período de vida, com frágil saúde, à
escrita, ao socialismo e ao feminismo.
Os socialistas franceses,
ditos críticos-utópicos, tais como Fourier e Saint-Simon, nutriam de uma
visão, na época, progressista acerca do papel das mulheres. Charles
Fourier, por sua vez, foi citado por Friedrich Engels, de forma bela, no
seu clássico: “Do socialismo utópico ao socialismo científico”: “Ainda
mais mordaz é a crítica que (Fourier) faz das relações sexuais da
burguesia e a posição social das mulheres. É o primeiro a declarar que,
em determinada sociedade, o grau de emancipação geral se mede pelo grau
da emancipação da mulher”. Em contraposição, gigantes do pensamento
político, como Rousseau (ideário máximo da Revolução Francesa, a qual
deixou as mulheres por fora. Nesse sentido, Olympe de Gouges destaca-se
com “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” em reposta a
“Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”) e Voltaire, eram contra
a emancipação feminina.
O jovem Karl Marx, no artigo “Sobre o
suicídio”, já explicita a opressão das mulheres relatando casos de
suicídios decorrentes da sociedade patriarcal. Mais tarde, em “A Sagrada
Família”, junto com Engels, desmistifica diversos preconceitos acerca
da mulher, com um ótimo estudo antropológico. Portanto, o movimento
socialista foi um pioneiro na defesa das mulheres.
Se expressa,
logo, no pensamento de Tristan, um ápice inegáveis das primeiras defesas
socialistas feministas. Futuramente, Rosa Luxemburgo (1871-1919),
militante revolucionária marxista, aparece-nos como outra grande
expoente do movimento socialista feminista.
Em 1838, Fora Tristan
publica “Peregnations of a pariah” (Viagens de uma pária), uma série de
relatos acerca de suas viagens, sempre mantendo o caráter feminista.
Agora, por que “pária” no título? Ora, Tristan dizia: “Eu sou uma
pária”, pois a classe feminina, em pleno Código Civil Napoleônico da
França, era a mais rebaixada, submissa e oprimida de todas. Segundo ela,
as mulheres eram proletárias do proletariado, ou seja, oprimidas pelos
já oprimidos – e em escala maior.
Já em 1840, é publicado
“Promenades dans Londres” (Passeios por Londres). Para esse livro, a
escritora visitou inúmeros lugares de Londres, que ela chamava “cidade
monstro”, relatando a imensa miséria dos trabalhadores e trabalhadoras. A
ambição, a ganância tornava aquela cidade um grande poço de alienados e
explorados. Além disso, Flora foi uma das primeiras, senão a primeira, a
relatar casos específicos da opressão na classe feminina: a
prostituição, as empregadas domésticas, etc. E, ademais, um ponto
essencial da obra de Tristan, explícito nesse livro, é a consideração da
classe feminina; a explicitação que existe o sexo feminino.
Cinco
anos antes do famoso “Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels,
de 1848, Flora já havia lançado um apelo a todos os proletários, sem
distinção de sexo nem nacionalidade. Dessa forma, a famosa frase que
termina o Manifesto de Marx e Engels: “Proletários de todo mundo,
uni-vos”, também já havia sido expressa, claro, em outras palavras, por
Flora Tristan em: “The worker´s union (União Operária). Flora
submeteu-se à ajuda coletiva para a publicação desse livro, de pessoas
que simpatizavam com a causa, pois nenhuma editora - mesmo as mais
radicais - gostariam de publicar um livro acerca do feminismo
socialista.
Além da união de todos os proletários, destaca-se a
primeira manifestação do sexo feminino na classe operária, ou seja, que a
classe operária tem dois sexos.
“Com um cálculo bem simples,
demonstrei aos operários que eles próprios possuem uma riqueza imensa
que podem se quiserem se unir, fizer milhões e mais, milhões com seus
centavos”, diz Tristan. Segundo a escritora, o proletariado: “É a classe
mais numerosa e a mais útil”. Sendo assim, diz ela: “Operários, vocês
são infelizes, sim, não há dúvida; mas de onde vem a principal causa de
seus males?... Se uma abelha e uma formiga, em vez de trabalhar em
acordo com outras abelhas e formigas para abastecer a morada comum para o
inverno, decidissem se separar e trabalhar sozinhas, elas morreriam de
frio e de fome em seu canto solitário. Então por que vocês querem
continuar no isolamento?... – Isolados, vocês são frágeis e terminam
sufocados sob o peso de misérias de toda sorte! Então! Saiam de seu
isolamento: unam-se! A união operária faz a força. Vocês têm a seu favor
o número, e o número é muita coisa.” (p.67) – (“União Operária”).
A
partir dessa bela conclamação aos operários e operárias, percebe-se o
porquê de “União Operária” ter uma tiragem inicial de quatro mil
exemplares, superando duas vezes a primeira tiragem do “Manifesto
Comunista”, como observa Eleni Varikas na apresentação do livro à edição
brasileira.
A estimulante ideia de Flora acerca do feminismo
socialista é explicitada no capítulo: “Porque menciono as mulheres”.
Nele, a escritora conceitua que libertar as mulheres da opressão é,
também e, sobretudo, obra da classe operária. Para isso, faz-se
necessário a união de todos os proletários para a emancipação de todo e
qualquer tipo de opressão e exploração.
Acerca da situação das
mulheres no trabalho, ela escreve: “É preciso considerar que em todas as
profissões exercidas por homens e mulheres a jornada da operária é paga
com metade da jornada do operário, ou se ela trabalha por tarefa, seu
pagamento será ainda menor. Não podendo supor uma injustiça tão
flagrante o primeiro pensamento que nos vem à mente é: em razão de sua
força de muscular o homem faz sem dúvida o dobro do trabalho da mulher.
Mas não! É justamente o contrário que acontece. Em todas as profissões
em que é preciso destreza e agilidade os dedos das mulheres fazem
exatamente o dobro do trabalho dos homens” (p. 117). – (União Operária).
Um ponto fundamental da obra de Tristan é: a emancipação das
mulheres contribuirá para a emancipação do proletariado. As mulheres
estão abaixo do proletário, são oprimidas pelos proletários, logo
deve-se, primeiro e antes de tudo, arrancar as amarras da servidão da
classe feminina. Com isso, a consciência da classe operária oprimida
tornar-se-á extremamente difundida. Entretanto, para conseguirmos essa
tão requerida etapa, é necessária a união! Hoje em dia, não só a união
dos proletários e das mulheres, mas também a união de todos os povos
oprimidos: negros, LGBTs, indígenas, etc. para que possamos tornar a
revolução realidade, para que possamos mudar o mundo, como bem dizia a
décima primeira tese sobre Feuerbach de Karl Marx: “Os filósofos têm
apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é
transformá-lo.”.
- Cauan Elias.
- Bibliografia: TRISTAN, Flora (2016). União Operária. São Paulo: Perseu Abramo.
KONDER, Leandro (1994). Uma vida de mulher, uma paixão socialista. Rio de Janeiro: Relumé Dumara.