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sábado, 23 de outubro de 2021

O inimigo invisível

Trecho destacado de "Os Sertões"

Dá pra ver que a sanha de nossos militares em criar inimigos invisíveis é uma tradição antiga. Abaixo, trecho de "Os Sertões", onde é narrado a Guerra de Canudos. A motivação era defender a República contra os monarquistas, que na verdade eram apenas gente pobre e faminta. (texto retirado no twitter).

terça-feira, 10 de agosto de 2021

O putch de Bolsonaro

Hoje é bem provável que ocorra um GOLPE MILITAR tão pretendido pelo presidente Bolsonaro. Tanques da marinha, alegando que o comboio da Operação Formosa vem do Rio e "passará por Brasília, a caminho" do campo de instrução de Formosa-GO mas o Google sugere algo diferente.


Se notarem bem, a suposta rota não passará por Brasília mas irá numa base de mísseis num provável abastecimento. Jair planejou isso, Com a adesão dos tanques do exército e da aeronáutica, está mas que claro que ele pretende cercar e fechar o congresso e o STF e dar início a sua ditadura e o fim da democracia.

“Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês”

Chico Buarque

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Escute, Zé NInguém!


Escute, Zé Ninguém!
 é a obra mais "popular" de Wilhelm Reich, em que ele mostra o que o homem comum faz a si mesmo: como sofre, como se revolta, como homenageia seus inimigos e mata seus amigos, como sempre que conquista o poder em "nome do povo" ele o utiliza mal e transforma em algo mais cruel do que a tirania à qual estava subjugado anteriormente, nas mãos da elite.

"És "livre" apenas num sentido; livre da educação que te permitiria conduzires a tua vidacomo te aprouvesse, acima da autocrítica."

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Destaque literário de junho'20

Nova obra de Henry Bugallo
O destaque literário deste mês vai para "Minha Especialidade é Matar: Como o Bolsonarismo tomou conta do Brasil", de Henry Bugallo ( versão em eBook Kindl) e não faço isso de favor. Depois de saber que inúmeros bolsonaristas estão desqualificando o livro na Amazon, é o mínimo queeste humilde blog poderia fazer já que vivemos numa época onde cultura e ciência são perseguidas por um governo que deseja retornar aos valores de uma época sombria justificada pelas teorias obscurantistas propagadas por Olavo de Carvalho.

Saber que a única forma de combater ao bolso-fascismo inspirado pelos bolsonaristas é ler obras que esmiúçam todas as teorias resultantes deste desgoverno já destacados neste blog (o primeiro deles justamente o outro livro deste autor sobre o pseudo-filósofo) é preciso entender lendo livros que forçam o contra-ponto. Afinal de contas a única lógica encontrada na obra de Olavo de Carvalho que ensina, seus métodos de destruição das reputações de seus oponentes, sem ao menos arriscar dialogar, argumentar com oponente só é encontrado em uma única obra de Carl von Clausewitz, Da Guerra.

Disponibilizamos agora a sinopse do e-book diretamente na página da Amazon:
Como o bolsonarismo tomou conta do Brasil?
Por que milhões de brasileiros votaram para eleger Bolsonaro, um homem que durante décadas demonstrou desprezo pelos valores democráticos, pelos direitos humanos e por grupos minoritários?
Esta obra é uma coletânea de artigos publicados por Henry Bugalho na Carta Capital e Folha de SP desde a posse de Jair Messias Bolsonaro, expondo os riscos cotidianos de seu governo, de sua retórica e da ideologia que propaga.
O e-book contém uma coletânea de artigos publicados pelo autor e é realmente curto (129 páginas) e barato (R$ 14,99). O autor também pensa em traduzir o e-book para versões em inglês e espanhol. Para quem tem algum domínio da língua acredito que possa ser bem útil para estudos.

Aproveitem, e deixem uma aprovação de no mínimo 5 estrelas para deixar os minons bem irritados.

sábado, 30 de maio de 2020

Boas notícias. O curador bolsofascista pediu pra sair

Caros escritores e escritoras, a CBL aceitou, como todos sabem, o pedido de demissão do curador do Prêmio Jabuti. Agradeço a todos e todas pelo apoio, seguimos, em frente. Não há mais espaço para a falta de sensibilidade. Atenciosamente, Afonso Borges. A. Leiam aqui um resumo: https://bit.ly/3gprxHw

Uma vitória da cultura, continuaremos na luta.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O Brasil está matando o Brasil, por Gustavo Conde

“Os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue”, diz Lima Duarte para Flávio Migliaccio.
* Nota do editor: Eu estava um pouco relutante em comentar as perdas de artistas e escritores me valendo com a foto da carta-suícidio de Flávio Migliaccio mas valendo do lirismo que alguns artigos e textos que usamos como recursos que esse humilde blog, presta um serviço de informação e principalmente a responsabilidade que um blog literário proporciona aos seus leitores. Assim, A Raposa Preppie, presta uma homenagem aos falecidos da pandemia sobre testemunho dos últimos acontecimentos com o brilhantismo de Gustavo Conde, linguista e youtuber do TV 247.


O Brasil vai se despedindo aos poucos. Mataram a democracia, a bandeira, o hino, os símbolos nacionais e, agora, com o auxílio inestimável do coronavírus, vão eliminando o povo.

Não é preciso dizer quem é o sujeito dessas ações. Você sabe, eu sei, todos sabem.

Quando Aldir Blanc foi pego pelo coronavírus e precisou da solidariedade de amigos para ser internado em uma UTI, eu tive medo. ‘Aldir, não’, pensava eu na solidão cidadã que se alastrou por este território outrora denominado país

Aldir, o maior letrista brasileiro - o gentílico se aplica a ele com singela delicadeza -, dono de mais de 500 canções em parcerias com os maiores melodistas desta terra, vivia uma vida franciscana para a monumentalidade de direitos autorais a que teria direito. O autor de “O Bêbado e a Equilibrista” não tinha plano de saúde

Foi através do apelo de sua filha Isabel que uma rede de amigos se uniu para prestar solidariedade - em meio ao caos sanitário que massacra o Brasil -, agilizando a transferência do compositor para uma UTI

Foi um dos gestos mais bonitos de carinho que já testemunhei. Ali, pôde-se ver um Brasil que ainda não acabou completamente - e o quanto Aldir Blanc e a família Blanc são amados por quem sabe reconhecer a luta pela democracia, pela arte e pela liberdade

O drama da família Blanc é o drama de todos nós brasileiros, órfãos de país, órfãos de democracia, órfãos de memória. A esposa de Aldir, Mari, está internada com o coronavírus neste momento. Não haverá despedidas

Qual dor pode ser maior do que essa

Eu respondo: a dor de passar por esta catástrofe sanitária - revestida de desumano isolamento afetivo - e ainda ser massacrado todos os dias por um genocida que mata, debocha, provoca e mente.

Quem ama a arte, a democracia e a vida humana está, neste momento, despedaçado pelo volume colossal de horrores promovido pelo Estado brasileiro.

Aos poucos, o Brasil - aquele Brasil que um dia foi imaginado e experimentado por todos nós - vai nos deixando em definitivo, sob a perplexidade de uma sociedade que aparentemente desaprendeu a reagir

Eu choro a morte de Aldir Blanc com toda a dor institucional que dilacera meu coração. Para mim, não morre apenas um dos maiores compositores da história deste Brasil em extinção, mas um ser humano adorável, pai, marido e amigo querido daqueles que tiveram o privilégio de cruzar o seu caminho

O Brasil não merece o Brasil. O Brasil está matando o Brasil.
A morte de Aldir não é apenas a morte de Aldir: é um aviso para que saiamos desse imobilismo chocante e confrontemos aqueles que nos matam todos os dias, através do ódio e da política da vingança

Esse Brasil que vai se despedindo não irá mais voltar. Moraes Moreira, Rubem Fonseca, Aldir Blanc vão levando consigo parte das nossas identidades. A responsabilidade, agora, é construir um outro Brasil, igualmente forte, pujante e pleno de cultura e ousadia - mas inexoravelmente novo e distinto

Este Brasil que se despede sequer é mencionado por este governo que nos assaltou e tenta nos arrancar o futuro todos os dias. Ele ignoram e detestam o Brasil democrático que superou a ditadura sangrenta com as músicas de Aldir Blanc. É uma sensação terrível de desterro, abandono e violência.

A morte de Aldir nos arremessa nessa realidade dramática que se confunde com a imensa dor pela perda de sua vida.

Ouçamos a obra de Aldir. Leiamos suas crônicas. Saudemos seu legado como o registro do melhor Brasil de todos os tempos, o Brasil que esmagou militares golpistas com arte e esperança equilibrista.

E que transformemos seu legado em energia política e artística para virar esse jogo mais uma vez. Ele iria gostar disso.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Resistindo ao fascismo

Desde a mais tenra idade a população foi condicionado pelo Estado a sentar, ficar calado, memorizar, comprar, gastar, aceitar, não ser empreendedor, ser subordinado, escravo sem contestar, e regurgitar, de forma inequívoca, em subsequentes testes realizados, tudo aquilo que lhe foi repassado. Foi dessa forma que o Sistema designou que você seria positivamente avaliado.

Foi mediante a uma repetição constante concomitante a uma plena subserviência e posteriores provas realizadas para medir o grau de sujeição e sugestionabilidade que a sua mente foi literalmente formatada. 

À grande mídia coube o emprego de programação neurolinguística a partir de séries, noticiários, documentários, novelas, seriados e também desenhos animados para fomentar e legitimar os falsos paradigmas enxertados.

Consensos científicos arbitrários e nada científicos de fato serviram para revestir todas as questões antes ensinadas de pretensa e percepcionada "realidade sacramentada incontestável". Todos nós fomos mentalmente programados. 

Isso é um triste, revoltante, porém indiscutível fato, entretanto para além da dissonância cognitiva permanecerão em um cativeiro mental assistido tão somente aqueles que se renegarem a fazer uso da sapiência que lhes foi concedida, não pelo acaso mas pelo Criador de toda a existência, O qual aqueles que dirigem o Sistema Ocultista rejeitam e antagonizam. 

Já passou da hora de deixarmos de ser capacho, um papagaio adestrado, um escravo mental de indivíduos que servem ao Diabo e regem organismos nefastos que desde sempre mentem, lhe exploram e lhe manipulam subvertendo dos fatos, a hora de acordar é agora, deixe de intelectual passividade, de completa submissão à tudo aquilo que seja oficialmente alegado, você não só pode como deve questionar tudo, inclusive e sobretudo o seu alegado "aprendizado", abandone o orgulho em não querer admitir que foi enganado a vida inteira, e a covardia pelo receio de ser pelos demais escravos mentais ridicularizado, investigue, reflita, racionalize, seja astuto, sagaz, perspicaz, distinto, resiliente, resoluto, pare de ser servil, apático, medíocre, conformado, e aceitar tudo que a mídia vomita o tempo todo. 

A verdade foi dita, acreditar ou não, só depende de você. Compartilhem verdades! Conto com vocês.

Autoria do Canal On:Off

 

domingo, 5 de abril de 2020

Minha singela contribuição pro “panelaço sabadão no Itaim”!

Recentemente no último sábado a jornalista Barbara Gancia, durante o último panelaço, declamou um poema usando seu megafone recém comprado causando revolta aos moradores bolsonazistas moradores no Itaim, em São Paulo.

Deve ser cantado segundo a melodia de “É coisa nossa”, de Silvio Santos.

Em seu twitter, a jornalista denuncia a perseguição feita pelas falanges bolsonazistas: 

Pessoal, praticamente minha rua inteira quer promover meu linchamento.
Neste exato momento eles estão lá fora gritando: "Bolsonaro! Bolsonaro!"; "Sai fora, sua velha FDP!" e "Cala a boca, Barbara Gancia!" Explico: fiz um poema cantado super bonitinho e recitei no Panelaço de hj.

Se eu morrer até o fim da quarentena, saibam que fui eu que incentivei minha própria matança. (megafone de 600m de alcance!) Terá sido por uma causa nobre...

(do twitter @barbaragancia em 4 de abril de 2020)

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Bem-vindo ao Estado suicidário por Vladimir Safatle

Hoje, A Raposa Preppie compartilha o textão completo de Vladimir Pinheiro Safatle e examinamos esse ponto de vista de como enxergamos as pretenções de um governo fascista.
"Você é parte de um experimento. Talvez sem perceber, mas você é parte de um experimento. O destino do seu corpo, sua morte são partes de um experimento de tecnologia social, de nova forma de gestão. Nada do que está acontecendo nesse país que se confunde com nossa história é fruto de improviso ou de voluntarismo dos agentes de comando. Até porque, ninguém nunca entendeu processos históricos procurando esclarecer a intencionalidade dos agentes. Saber o que os agentes acham que estão a fazer é realmente o que menos importa. Como já se disse mais de uma vez, normalmente eles o fazem sem saber.
Esse experimento do qual você faz parte, do qual te colocaram à força tem nome. Trata-se da implementação de um “Estado suicidário” como disse uma vez Paul Virilio. Ou seja, o Brasil mostrou definitivamente como é o palco da tentativa de implementação de um Estado suicidário. Um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo. Agora, é sua face a mais cruel, sua fase terminal.
Engana-se quem acredita que isto é apenas a já tradicional figura do necroestado nacional. Caminhamos para além da temática necropolítica do Estado como gestor da morte e do desaparecimento. Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe, ele é o cultivador de sua própria explosão. Para ser mais preciso, ele é a mistura da administração da morte de setores de sua própria população e do flerte contínuo e arriscado com sua própria destruição. O fim da Nova República terminará em um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos.


Um Estado dessa natureza só apareceu uma vez na história recente. Ele se materializou de forma exemplar em um telegrama. Um telegrama que tinha número: Telegrama 71. Foi com ele que, em 1945, Adolf Hitler proclamou o destino de uma guerra então perdida. Ele dizia: “Se a guerra está perdida, que a nação pereça”. Com ele, Hitler exigia que o próprio exército alemão destruísse o que restava de infraestrutura na combalida nação que via a guerra perdida. Como se esse fosse o verdadeiro objetivo final: que a nação perecesse pelas suas próprias mãos, pelas mãos do que ela mesma desencadeou. Esta era a maneira nazista de dar resposta a uma raiva secular contra o próprio Estado e contra tudo o que ele até então havia representado. Celebrando sua destruição e a nossa. Há várias formas de destruir o Estado e uma delas, a forma contrarrevolucionária, é acelerando em direção a sua própria catástrofe, mesmo que ela custe nossas vidas. Hannah Arendt falava do fato espantoso de que aqueles que aderiam ao fascismo não vacilavam mesmo quando eles próprios se tornavam vítimas, mesmo quando o monstro começava a devorar seus próprios filhos.

 

O espanto, no entanto, não deveria estar lá. Como dizia Freud: “mesmo a auto-destruição da pessoa não pode ser feita sem satisfação libidinal”. Na verdade, esse é o verdadeiro experimento, um experimento de economia libidinal. O Estado suicidário consegue fazer da revolta contra o Estado injusto, contra as autoridades que nos excluíram, o ritual de liquidação de si em nome da crença na vontade soberana e na preservação de uma liderança que deve encenar seu ritual de onipotência mesmo quando já está claro como o sol sua impotência miserável. Se o fascismo sempre foi uma contrarrevolução preventiva, não esqueçamos que sempre soube transformar a festa da revolução em um ritual inexorável de auto-imolação sacrificial. Fazer O desejo de transformação e diferença conjugar a gramática do sacrifício da auto-destruição: essa sempre foi a equação libidinal que funda o Estado suicidário.
O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de urna pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção ao Hades. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim.
É claro que tal Estado se funda nessa mistura tão nossa de capitalismo e escravidão, de publicidade de coworking, de rosto jovem de desenvolvimento sustentável e indiferença assassina com a morte reduzida a efeito colateral do bom funcionamento necessário da economia. Alguns acham que estão a ouvir empresários, donos de restaurantes e publicitários quando porcos travestidos de arautos da racionalidade econômica vêm falar que pior que o medo da pandemia deve ser o medo do desemprego.
Na verdade, eles estão diante de senhores de escravos que aprenderam a falar business english. A lógica é a mesma, só que agora aplicada à toda a população. O engenho não pode parar. Se para tanto alguns escravos morrerem, bem, ninguém vai realmente criar um drama por causa disso, não é mesmo? E o que afinal significa 5.000, 10.000 mortes se estamos falando em “garantir empregos”, ou seja, em garantir que todos continuarão sendo massacrados e espoliados em ações sem sentido e sem fim enquanto trabalham nas condições as mais miseráveis e precárias possíveis?
A história do Brasil é o uso contínuo desta lógica. A novidade é que agora ela é aplicada a toda a população. Até bem pouco tempo, o país dividia seus sujeitos entre “pessoas” e “coisas”, ou seja, entre aqueles que seriam tratados como pessoas, cuja morte provocaria luto, narrativa, comoção e aqueles que seriam tratados como coisas, cuja morte é apenas um número, uma fatalidade da qual não há razão alguma para chorar. Agora, chegamos à consagração final desta lógica. A população é apenas o suprimento descartável para que o processo de acumulação e concentração não pare sob hipótese alguma.


É claro que séculos de necropolítica deram ao Estado brasileiro certas habilidades. Ele sabe que um dos segredos do jogo é fazer desaparecer os corpos. Você retira números de circulação, questiona dados, joga mortos por corona vírus em outra rubrica, abre covas em lugares invisíveis. Bolsonaro e seus amigos vindos dos porões da ditadura militar sabem como operar com essa lógica. Ou seja, a velha arte de gerir o desaparecimento que o Estado brasileiro sabe fazer tão bem. De toda forma, there is no alternative. Esse era o preço a pagar para que a economia não parasse, para que os empregos fossem garantidos. Alguém tinha que pagar pelo sacrifício. A única coisa engraçada é que sempre são os mesmos quem pagam. A verdadeira questão é outra, a saber: Quem nunca paga pelo sacrifício enquanto prega o evangelho espúrio do açoite?
Pois vejam que coisa interessante. Na República Suicidária Brasileira não há chance alguma de fazer o sistema financeiro verter seus lucros obscenos em um fundo comum para o pagamento de salários da população confinada, nem de enfim implementar o imposto constitucional sobre grandes fortunas para ter a disposição parte do dinheiro que a elite vampirizou do trabalho compulsivo dos mais pobres. Não, essas possibilidades não existem. There is no alternative: será necessário repetir mais uma vez?
Essa violência é a matriz do capitalismo brasileiro. Quem pagou a ditadura para criar aparatos de crimes contra a humanidade na qual se torturava, estuprava, assassinava fazia desaparecer cadáveres? Não estavam lá dinheiro de Itaú, Bradesco, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Fiesp, ou seja, todo o sistema financeiro e empresarial que hoje tem lucros garantidas pelos mesmos que veem nossas mortes como um problema menor?
Na época do fascismo histórico, o Estado suicidário mobilizava-se através de uma guerra que não podia parar. Ou seja, a guerra fascista não era uma guerra de conquista. Ela era um fim em si mesmo. Como se fosse um “movimento perpétuo, sem objeto nem alvo” cujos impasses só levam a uma aceleração cada vez maior. A ideia nazista de dominação não está ligada ao fortalecimento do Estado, mas a um movimento em movimento constante. Hannah Arendt falará da: “essência dos movimentos totalitários que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia”. Uma guerra ilimitada que significa a mobilização total de todo efetivo social, a militarização absoluta em direção a uma guerra que se torna permanente. Guerra, no entanto, cuja direção não pode ser outra que a destruição pura e simples.
Só que o Estado brasileiro nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada. Seu exército não serviu a outra coisa que se voltar periodicamente contra sua própria população. Esta é a terra da contrarrevolução preventiva, como dizia Florestan Fernandes. A pátria da guerra civil sem fim, dos genocídios sem nome, dos massacres sem documentos, dos processos de acumulação de capital feitos através de bala e medo contra quem se mover. Tudo isso aplaudido por um terço da população, por seus avós, seus pais, por aqueles cujos circuitos de afetos estão presos nesse desejo inconfesso do sacrifício dos outros e de si há gerações. Pobres dos que ainda acreditam que é possível dialogar com quem estaria nesse momento a aplaudir agentes da SS.
Pois alternativas existem, mas se elas forem implementadas serão outros afetos que circularão, fortalecendo aqueles que recusam tal lógica fascista, permitindo enfim que eles imaginem outro corpo social e político. Tais alternativas passam pela consolidação da solidariedade genérica que nos faz nos sentir em um sistema de mútua dependência e apoio, no qual minha vida depende da vida daqueles que sequer fazem parte do “meu grupo”, que estão no “meu lugar”, que tem as “minhas propriedades”. Esta solidariedade que se constrói nos momentos mais dramáticos lembra aos sujeitos que eles participam de um destino comum e devem se sustentar coletivamente. Algo muito diferente do: “se eu me infectar, é problema meu”. Mentira atroz, pois será, na verdade, problema do sistema coletivo de saúde, que não poderá atender outros porque precisa cuidar da irresponsabilidade de um dos membros da sociedade. Mas se a solidariedade aparece como afeto central, é a farsa neoliberal que cai, esta mesma farsa que deve repetir, como dizia Thatcher: “não há essa coisa de sociedade, há apenas indivíduos e famílias”. Só que o contágio, Margareth, o contágio é o fenômeno mais democrático e igualitário que conhecemos. Ele nos lembra, ao contrário, que não há essa coisa de indivíduo e família, há a sociedade que luta coletivamente contra a morte de todos e sente coletivamente quando um dos seus se julga viver por conta própria.
Como disse anteriormente, alternativas existem. Elas passam por suspender o pagamento da dívida pública, por taxar enfim os ricos e fornecer aos mais pobres a possibilidade de cuidar de si e dos seus, sem se preocupar em voltar vivo de um ambiente de trabalho que será foco de disseminação, que será a roleta russa da morte. Se alguém soubesse realmente fazer conta nas hostes do fascismo, ele lembraria o que acontece com um dos únicos países do mundo que recusa seguir as recomendações de combate à pandemia: ele será objeto de um cordão sanitário global, de um isolamento como foco não controlado de proliferação de uma doença da qual os outros países não querem nunca mais partilhar. Ser objeto de um cordão sanitário global deve ser realmente algo muito bom para a economia nacional.
Enquanto isto nós lutamos com todas as forças para encontrar algo que nos faça acreditar que a situação não é assim tão ruim, que tudo se trata de derrapadas e destemperos de um insano. Não, não há insanos nessa história. Esse governo é a realização necessária de nossa história de sangue, de silêncio, de esquecimento. História de corpos invisíveis e de capital sem limite. Não há insanos. Ao contrário, a lógica é muito clara e implacável. Isso só ocorre porque quando é necessário radicalizar sempre tem alguém nesse país a dizer que essa não é ainda a hora. Diante da implementação de um Estado suicidário só nos restaria uma greve geral por tempo indeterminado, uma recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia. Só nos restaria queimar os estabelecimentos dos “empresários” que cantam a indiferença de nossas mortes. Só nos restaria fazer a economia parar de vez utilizando todas as formas de contra-violência popular. Só nos restaria parar de sorrir, porque agora sorrir é consentir. Mas sequer um reles pedido de impeachment é assumido por quem diz fazer oposição. No que seria difícil não lembrar dessas palavras do evangelho: “Se o sal não salga, de que serve então?”. Deve servir só para nos fazer esquecer do gesto violento de recusa que deveria estar lá quando tentam nos empurrar nossa própria carne servida a frio.”
Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, professor convidado das universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch. É um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisas em Teoria social, Filosofia e psicanálise (Latesfip/USP)

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